Quais são os animais mais utilizados em experimentos?
A pesquisa científica tem recorrido historicamente ao uso de animais com base na premissa de que eles podem servir de modelo para processos biológicos humanos, especialmente na avaliação de tratamentos médicos e substâncias potencialmente tóxicas. Mas quais são os mais utilizados?
Entre eles, destacam-se os roedores, devido ao seu genoma conhecido, facilidade de manejo e rápida reprodução, o que os posiciona como um dos modelos mais utilizados para o estudo de doenças complexas. Também são utilizadas aves e peixes em estudos de genética e desenvolvimento embrionário, além de nematóides e anfíbios. A essas espécies somam-se coelhos e porcos, utilizados em imunologia e tecnologias de transplante devido às suas semelhanças fisiológicas com os seres humanos. Esse uso tem gerado debates éticos persistentes, tanto pelas limitações na extrapolação dos resultados quanto pelo bem-estar dos animais utilizados.
Quando começaram os experimentos com animais?
As primeiras evidências de vivissecção remontam à Grécia Antiga, com figuras como Aristóteles e Galeno. Com o passar dos séculos, a prática se sistematizou e se expandiu para áreas como a biomedicina. No século XVII, René Descartes sustentou que os animais eram incapazes de sentir dor, o que contribuiu para justificar seu uso por um longo período. No século seguinte, a fisiologia e a medicina passaram a ser validadas por meio de experimentos com animais, como os realizados por Louis Pasteur no desenvolvimento da imunização.
Posteriormente, no Reino Unido, foi aprovada uma legislação sobre crueldade contra os animais e surgiram organizações como a National Anti-Vivisection Society. Entre as décadas de 1950 e 1970, aumentaram os questionamentos sociais a essas práticas. Apesar disso, na década de 1980 foram desenvolvidos animais transgênicos e, em 1996, ocorreu um dos marcos mais controversos com a clonagem da ovelha Dolly.
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Por que ainda se usa animais?
O uso de animais em pesquisas responde a fatores éticos, biológicos e práticos, enquadrados nos princípios das 3R e em normas que buscam equilibrar o avanço científico com a redução do sofrimento. Em teoria, isso só se justifica quando não há alternativas viáveis, como modelos computacionais ou celulares.
A escolha da espécie depende de suas características biológicas e dos objetivos do estudo. Nesse contexto, recomenda-se evitar o uso de espécies com maior capacidade cognitiva, substituindo-as por outras que, embora respondam a estímulos nocivos, são consideradas capazes de experimentar a dor de maneira diferente. No entanto, esse critério suscita um debate ético persistente: se uma diferença na percepção da dor é suficiente para justificar o uso de animais em pesquisas.
Modelos mais utilizados
Camundongos e ratos:
Os camundongos (Mus musculus) e as ratazanas (Rattus norvegicus) são as espécies mais utilizadas na pesquisa biomédica, representando cerca de mais de 70% dos animais empregados em nível global. Seu uso se deve ao seu pequeno tamanho, rápida reprodução, facilidade de manejo e ao fato de seu genoma ser conhecido e passível de manipulação. Eles vêm sendo geneticamente modificados há décadas para o estudo de doenças como câncer, diabetes e distúrbios neurodegenerativos.
Os ratos, por sua vez, apresentam diferenças evolutivas em relação aos camundongos e uma fisiologia mais próxima da humana em aspectos como os sistemas cardiovascular e neurológico. Além disso, permitem um monitoramento fisiológico mais preciso e facilitam procedimentos como cirurgias e a administração de medicamentos.
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Coelhos:
Os coelhos (Oryctolagus cuniculus) são utilizados em estudos toxicológicos e de segurança, especialmente devido às características de sua fisiologia ocular, bem como em pesquisas sobre imunidade e produção de anticorpos para vacinas. Também têm sido empregados em estudos de cardiologia e cirurgia a laser.
Nas últimas décadas, seu uso tem diminuído devido à pressão social e ao desenvolvimento de métodos alternativos, como organoides oculares e outros modelos experimentais.
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Aves:
As aves, em especial as galinhas (Gallus gallus), são utilizadas devido à sua estrutura cerebral bem definida e à sua capacidade de aprendizagem. Seus ovos também são empregados como biorreatores para produzir proteínas de interesse humano. Além disso, elas foram modificadas para aumentar sua resistência a doenças e melhorar sua eficiência produtiva. Outras espécies, como a Taeniopygia guttata (pintassilgo-zebra), são utilizadas em estudos sobre distúrbios da fala associados a mutações genéticas.
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Porcos:
Os porcos ganharam importância na pesquisa devido às suas semelhanças fisiológicas com os seres humanos. Eles são utilizados em estudos voltados para a produção de proteínas e o desenvolvimento de órgãos por meio da edição genética, com o objetivo de avançar nos tratamentos e transplantes.
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Peixes:
O peixe-zebra é um dos modelos mais utilizados, devido à sua fertilização externa e ao seu rápido e transparente desenvolvimento embrionário, o que permite observar processos biológicos em tempo real. Ele apresenta semelhanças genéticas com os seres humanos, por isso é utilizado em estudos de doenças cardiovasculares, neuromusculares e mutagênese.
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Mosca-da-fruta:
A mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster) é um dos modelos mais antigos e utilizados em estudos genéticos. Seu curto ciclo de vida, facilidade de cultivo e semelhança genética com os seres humanos têm favorecido seu uso em pesquisas sobre desenvolvimento embrionário, sistema nervoso e comportamento.
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Traça da cera:
A traça (Galleria mellonella) tem sido utilizada em estudos sobre o sistema imunológico, toxicologia e infecções. Sua resposta imunológica é observada por meio da melanização: quanto mais escura a larva fica, mais avançada é a infecção. A formação do casulo também pode ser afetada pela presença de patógenos ou por alterações genéticas. Embora seu uso tenha diminuído, ela continua despertando interesse biotecnológico devido à sua capacidade de degradar o polietileno.
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Nematóides:
O Caenorhabditis elegans foi o primeiro organismo multicelular a ter seu genoma completamente sequenciado. Seu ciclo de vida curto, facilidade de manuseio e semelhança genética com outros organismos fazem dele um modelo amplamente utilizado. Sua transparência e seu sistema nervoso bem caracterizado permitem seu uso em estudos sobre envelhecimento, diabetes e genética do desenvolvimento.
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Anfíbios:
O sapo africano (Xenopus laevis) é um modelo fundamental na biologia do desenvolvimento, utilizado em estudos de embriologia e genética devido à sua capacidade de produzir numerosos óvulos e à facilidade de realizar microinjeções. Seus extratos celulares também são empregados em pesquisas sobre divisão celular, replicação e apoptose.
Outras espécies, como a rã-touro-americana (Rana catesbeiana), são utilizadas em estudos fisiológicos, de toxicologia e de adaptação metabólica. As salamandras, como a Ambystoma maculatum, se destacam por sua capacidade regenerativa, o que permite investigar processos de reparo tecidual e regeneração de membros. Outras espécies também são empregadas para estudar a adaptação e a resistência ao estresse ambiental.
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Primatas não humanos:
Os primatas não humanos possuem sistemas nervosos centrais semelhantes aos dos seres humanos, com elevada capacidade cognitiva e emocional. Essas características levantam dilemas éticos mais complexos, uma vez que seu sofrimento e sua percepção da dor são considerados comparáveis.
Por esse motivo, seu uso está sujeito a regulamentações mais rigorosas e se limita a casos em que não há alternativas, principalmente em estudos de neurociência e no desenvolvimento de vacinas contra doenças de grande impacto, como ocorreu durante a pandemia da COVID-19.
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Principais observações
De uma perspectiva ética, questiona-se se o sofrimento animal seja um custo aceitável para o progresso científico, especialmente considerando sua capacidade de sentir dor e emoções. Apesar dos princípios das 3R, persiste a preocupação com a diversidade de espécies utilizadas e as limitações em sua regulamentação. A escolha das espécies costuma ser influenciada pela facilidade de manejo, pelas semelhanças fisiológicas com os seres humanos e pela percepção de menor sofrimento em organismos com sistemas nervosos menos complexos, o que tem favorecido o uso de peixes, aves e insetos em detrimento dos mamíferos.
Do ponto de vista científico, embora os modelos animais tenham sido fundamentais para inúmeros avanços, seu uso apresenta limitações. No desenvolvimento de medicamentos, muitos compostos que superam a fase pré-clínica em animais não obtêm resultados satisfatórios em seres humanos, devido a diferenças biológicas que dificultam a extrapolação dos dados.
Nesse contexto, a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) promoveu novas diretrizes para reduzir o uso de animais nas etapas pré-clínicas, incentivando alternativas como culturas celulares e modelos computacionais, que oferecem maior precisão e aplicabilidade. No entanto, essa transição requer não apenas avanços tecnológicos, mas também mudanças culturais e regulatórias que priorizem o respeito aos animais utilizados em pesquisas.
Conheça as novas tecnologias que avançam em direção à substituição de animais na ciência.
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